DOS QUE APRENDEM NO/DO LABOR…*

Por: Aprenderes-Reflexões, divagações, incertezas e saber em rede.

ago 14 2011

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Categoria: Made by me

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Atuar como docente na Educação de Jovens e Adultos (EJA) requer do profissional a construção da capacidade de se colocar no lugar do outro compreendendo que aquele lugar é, também, o seu.
As experiências nesta modalidade de ensino me fizeram entender que as maiores e mais transformadoras descobertas, advindas desse espaço, não se referem às metodologias, mas à relação entre pessoas que aprendem. Dela, é possível destacar três aspectos:
– a construção da alteridade;
– a vinculação pela assunção da condição de trabalhador;
– o reconhecimento do aprendizado, diuturno, com os alunos – sujeitos de saberes não escolares forjados no cotidiano de luta e trabalho pela sobrevivência simbólica e física.
O encontro de professores-trabalhadores com alunos–trabalhadores, no âmbito da EJA, coloca a função de mediação dos conhecimentos, social e historicamente, construídos pela humanidade como ferramenta de (re)construção e superação das relações de trabalho com base feudalista (presentes na História da Bahia em função da exploração tanto da mão de obra escrava quanto dos ditos homens livres) vivenciadas por homens e mulheres inseridos no mundo laboral.
Os alunos-trabalhadores que freqüentam a EJA foram – e continuam sendo-, sistematicamente, expulsos do sistema educacional e do sistema de produção. Estão, em sua maioria, inseridos em postos de trabalho subalternos e submetidos a situações de precariedade laboral. Necessitam reivindicar, constantemente, que se cumpram as leis que regulamentam a sua atividade e o pagamento, justo, pela sua atuação. As condições de produção do trabalho docente não diferem, substancialmente, dessas.
Estes homens e mulheres, reunidos no espaço da sala de aula, se irmanam na necessidade de reflexão – como condição para cidadania – sobre a sua atividade de trabalho, saberes, condições de produção, relações sociais, pertinência á categoria laboral, valores, conseqüências da suas opções e ações políticas, posição e função social.
É verdade que admitir esta aproximação como condição e conseqüência da docência é, no mínimo, incômodo. No entanto, desse encontro nasce a possibilidade de colocar-se no lugar do outro; festejar e acolher as diferenças; considerar a dignidade como condição humana primeva. Somente dessa forma pode ocorrer o reconhecimento de si na relação com o outro – alteridade.
A alteridade é condição para o diálogo – fundamento da intervenção pedagógica. Apenas quem se permite a abertura para o outro e assume o próprio inacabamento, dialoga. Pela via da alteridade alunos-trabalhadores e professores-trabalhadores, conscientemente marcados pelas suas condições sócio-históricas, constituem relações de aprendizagem.
A relação com o saber é mediada neste encontro de professores e alunos atravessados pelo labor. Porque se respeitam e se reconhecem como sujeitos de saberes, aprendem e ensinam.
Sem a dialogicidade do encontro, sem a oportunidade da EJA esses professores e alunos não poderiam descobrir o valor de aprender-ensinar.
A EJA proporciona a homens e mulheres viverem a experiência, sistemática e pedagogicamente planejada, do espelhamento e da superação da relação aprendiz-mestre. E, a partir dela, a construção de conhecimentos autorais – saberes.
Em processo de educação, professores e alunos, descobrem os usos e possibilidades das estratégias de aprendizagem, processos mentais, informações e conhecimentos que, paulatinamente, se transformam em idiossincráticos saberes de trabalhadores que estudam com educadores que trabalham.

Dina Maria Rosário

* Texto publicado na 1ª Edição da Revista Seja + Educador (UNIME/Paralela)-Seção Palavra de Mestre em Jun/2011).

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