Cosmo polis ismo – das espacialidades urbanas (Dina Maria Rosário)


Por volta das 17 horas de uma mormacenta tarde de julho a Avenida de Roma dormita. É uma rua tranquila e mais tranquilo ainda parece ser o seu Centro Comercial: Acqua Roma. A sua suposta calma contradiz a fachada revestida em aço inox. Forte e robusta, serve de preâmbulo a um espaço de compras quase vazio onde o moroso ritmo é quebrado pelo esparso som de crianças brincando, bengalas, andadores e saltos agulha.
Ao entrar, as portas isolam o burburinho da rua. Sou saudada por uma larga rampa e uma escadaria. As paredes são cinza e o acesso é negro. Não sei se esta primeira visão convida as pessoas ou se as expulsa da Meca das compras. Uma idosa, meticulosamente, limpa o átrio – a mim, parece bastante limpo, mesmo antes da sua chegada. A sua farda verde e os seu ténis com detalhes em laranja contrastam com a sua expressão cansada. Logo entendo para que serve a larga rampa … Durante os primeiros 2 ou 3 minutos em que estive parada na entrada, a faixa etária dos transeuntes rondava os 70 anos. A estrutura do Centro Comercial está sustentada por colunas forradas com metal cinza. O conjunto forma algo entre o futurista e o lúgubre. O acesso às lojas é por entre as pilastras e, no centro do edifício, as vigas aparentes dão uma sensação de opressão. O olhar é entrecortado por escadas de metal e paredes. As cores dominantes são o cinza, o negro e o marrom.
No final do corredor há um espaço para recreação infantil. A entrada está tomada por um barco colonizador marrom onde brincam três crianças. Atrás dele, uma casinha amarela de plástico, alguns cavalinhos de baloiço, mães, avós, carrinhos e bebés, todos reunidos em volta de um tapete vermelho. Não sei se é intencional ou coincidência, mas a loja de preços mínimos fica ao lado das crianças e das mães. É engraçado notar como tudo está no mesmo sítio: a roupa infantil, o lanche, a lavandaria, o conserto para roupas. Talvez uma mãe pós-moderna não precise de sair do piso inferior.
O primeiro piso é um pouco mais claro e menos lúgubre. Estão lá as lojas de marca, de roupa feminina e masculina, bebidas, joias… e o passadiço de madeira completamente vazio. Três senhoras conversam, confortavelmente sentadas em poltronas, em frente a uma loja de roupa feminina. Parece uma reunião de amigas. (A funcionária da limpeza observa-me enquanto, lentamente, sobe as escadas.) A reunião segue tendo como tema principal o quotidiano dos filhos e netos. A troca de informações sobre magia e receitas para quebrar encantamentos utilizando a igreja e os seus símbolos é, no mínimo, pitoresca. Comentam sobre o ‘mau-olhado’ e como podem proteger netos e filhos. Uma delas fala de um ritual contra no qual se utilizam as portas e paredes de uma igreja. Uma outra esclarece que existe o mau-olhado do bem e o mau-olhado do mal. A conversa passa para o tema de uma pessoa que só gosta de homens casados. E daí evolui para o uso da borra do café para fazer leituras divinatórias. Discutem sobre formas para ler a sorte no casamento através da borra do café. Surgem controvérsias sobre a possibilidade de usar folhas de chá. Uma delas, enfaticamente, afirma: – “Eu sei porque já fiz isso!” A sua postura assertiva põe fim à discussão.
Essas senhoras portuguesas fazem-me lembrar Chico César: ‘No meu peito católico tudo é descrença e fé’. Cosmopolitamente, três avós encontram-se num shopping para discutir formas de proteção dos membros de suas respectivas famílias. Tradicionais e contemporâneas, essas mulheres expõem saberes de um sincretismo, supostamente, lusitano em um espaço coberto de aço inox. Os encantamentos – testemunhos do desejo de controle/poder e da fragilidade humana – persistem, resistem e sobrevivem na inventada laicidade das metrópoles. A magia atravessa as racionalidades urbanas.
Enquanto as senhoras trocam saberes uma jovem fala ao telefone. O ambiente está dominado por mulheres, crianças e idosos de ambos os sexos. As vendedoras entram e saem das lojas como se o movimento delas pudesse aumentar a quantidade de clientes. É interessante notar como chama atenção a postura de quem não está no centro comercial para comprar. Talvez porque seja clara a origem estrangeira… ou o olhar que não se dirige aos objetos de compra mas às pessoas… ou salte aos olhos que não vou consumir. Estou consumindo-as… Os dois funcionários que circulam no shopping – o segurança e a senhora da limpeza – continuam observando-me de perto e atentamente.
O local mais claro do edifício é a praça de alimentação. E finalmente dou-me conta de que o shopping tem forma de navio. As fotografias de barcos e partes de barcos na parede do último piso não deixam margem para dúvidas. Talvez a metáfora seja a de embarquemos nos mares do consumo. É interessante notar como num Centro Comercial vazio o movimento das escadas produz uma sensação de vida.
A praça de alimentação alimenta dezanove pessoas: quatro adolescentes comem e quinze homens e mulheres leem. Será este Centro Comercial frequentado pelos vizinhos? Será que, aos fins de semana, é para ele que se dirigem os jovens da vizinhança? Será que navega, silenciosa e lentamente, para a falência? Num ecrã exibem um jogo de futebol. O ecrã está posicionado em frente a três adolescentes. Ou o jogo é pouco importante, ou a fome é mais importante. O fato é que eles conversam entre si e não olham para a televisão. A tela exibe notícias da Síria. Enquanto um país sangra um único homem assiste…
Do terceiro piso vejo que o trio de amigas se dissolve… primeiro uma e depois duas despedem-se e seguem… Aqui e ali passam mulheres com suas sacolas de compras. A hierarquia do shopping organiza-se da seguinte forma: Lazer e serviços no piso inferior; Compras no piso intermédio; Alimentação no piso superior. Aos três níveis pode aceder-se por escadas normais ou rolantes. Do último piso é possível observar todos os outros. Nos três pisos está presente um anúncio de um atelier infantil para os sábados. O mesmo anúncio está na porta de entrada… Será esta a estratégia para garantir clientela e movimento? Se for, é possível imaginar a que público se destina o espaço…
Testemunho da geopolítica urbana.

Dina Maria Rosário

Obs: Este texto é parte integrante do Exercícios de Escrita etnográfica Lisboa numa tarde de Julho de 2012 produzido a partir do Curso de Verão em Escrita Etnográfica do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.
Acesse o material completo aqui.

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