Moça que me pariu

Por: Aprenderes-Reflexões, divagações, incertezas e saber em rede.

maio 10 2013

Categoria: Made by me

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“Moça que me pariu, eu te gosto pra danar.”
É o que esta escrito em um meticuloso pacote de papel embrulho amarrado com cordão que foi colocado no batente da janela de um modesto sobrado em um cidadezinha do interior da Bahia.
Dentro um robe rosa bordado com motivos florais em Ponto Cruz.
Era dia das mães.
Após depositar o embrulho, como quem coloca uma criança em um moisés, ela saiu. A passos miúdos caminhou para o lado oposto da avenida e se foi. No final da rua ainda olhou para a casa por cima do ombros… se demorou um estante, com que hesitante, e seguiu.
Era uma mulher pequena, forte e arredondada como qualquer típica sertaneja. A pele castigada pelo sol e o cabelo crespo alourado pela luz inclemente da estiagem.
Era possível ouvir os seus pensamentos… tão disponíveis ao ouvido alheio quanto ao olhar estavam as suas formas apertadas no vestido rosa, curto e justo, com as laterais e as alças do soutien vermelho a mostra. Mal equilibrada entre o salto 15cm e a corrente da bolsa brilhante que teimava em cair do ombro, ela toda parecia o intervalo entre uma cena de menina e uma esquete de mulher.
O sol mal havia nascido de modo que o horário e a ausência de outros moradores faziam dela a protagonista na cidade.
Eu nunca que peguei gosto nisso de ser usada de homem… Por aqui isso de ser moça é coisa que só pega em menina rica, em rezadeira e em milagreira. Eu nunca rezei e o único milagre que fiz foi o de nascer.
Sou filha de rezadeira milagreira…
Diz que minha mãe só sai de casa pra rezar moribundo e que nunca conheceu homem… Eu conheço demais da conta.
O povo daqui diz que minha mãe me pariu moça. Contam que desde novinha ela reza bem e cura o povo. Então já estava destinada a moça velha que era pra não perder a força da cura. Mulé usada de homem não ajeita reza que preste.
Acontece que tinha um rapazote que arrastava um caminhão por ela. Um dia ele roubou a roupa dela no varal. Ele se refestelou com a calcinha dela e tornou a botar no corda. A pobre, desavisada, usou a peça e pegou menino. Coitada…
Eu nunca pegei menino… Nesses anos todos de labuta com homem eu nunca pequei menino… é que filho de moça não faz filho. Eu até queria…
Fui criada ali… no meio da reza e cheirando a pecado.
Lembro do dia, ainda meninota, que um coronelzinho foi lá pra ser rezado de maleita. O cabra olhou pra mim, todo arregaçado da doença, e disse: – Eita niguinha ingraçadinha! Toda cevadinha…Destá que já já eu fico bom.
Foi a minha danação.
Minha mãe nunca negou cura a ninguém e curou o tal coronelzinho. Bastou firmar as pernas e ele veio atrás de mim. Pra não levar a fama me botou logo usada por quatro. Ele foi o primeiro e depois foram os outros.
Moça que me pariu, eu nunca que peguei gosto nisso.
Aqui só se demora moça quem é menina rica prometida ou rezadeira ou milagreira.
Eu nunca soube rezar.
Milagre só sei o de viver.
É… Eu nunca que peguei gosto na vida…

Dina Maria Rosário

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